Leishmaniose
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Leishmaniose

Protocolo terapêutico que utiliza ferramenta da nanotecnologia para modificar a biodistribuição do fármaco no organismo alcançou a cura terapêutica para a leishmaniose visceral canina (LVC). Desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), o tratamento, que propõe nova formulação com a associação de medicamentos já conhecidos – antimoniato de meglumina (glucantime) e alopurinol – gerou depósito de duas patentes nacionais e é objeto de negociação com empresa farmacêutica multinacional para transferência da tecnologia.

Os testes atingiram taxa de 50% de cura parasitológica. Além disso, todos os animais submetidos ao tratamento deixaram de transmitir o parasita Leishmania infantum chagasi para o inseto vetor flebotomíneo, o que quebra o ciclo de transmissão da doença do cão para o ser humano.
Até agora, nenhum tratamento era considerado eficaz para animais naturalmente infectados. “Este é o primeiro protocolo que leva a uma taxa de cura tão alta. Vamos procurar alcançar os 100%, mas já temos a prova de conceito de que é possível curar a LVC”, destaca o professor Frédéric Frézard, do Departamento de Fisiologia e Biofísica, responsável por artigo sobre o assunto que será publicado na edição de junho da revista norte-americana Antimicrobial Agents and Chemotherapy, de alto impacto na área.

O artigo é fruto da tese de doutorado de Sydnei Magno da Silva, defendida em setembro passado. O estudo integra linha de investigação que envolve também as pesquisadoras Maria Norma Melo e Marilene Michalick, do Departamento de Parasitologia do ICB, responsáveis pelos ensaios com as formulações; e Cynthia Demicheli, do Departamento de Química do Icex, que fez a síntese do princípio ativo.

Eficácia

O trabalho do grupo tem como foco fármacos à base de antimônio pentavalente, metal usado desde os anos 1940 no tratamento das leishmanioses cutânea e visceral em humanos. No cão, esse medicamento não tem eficácia – produz melhora clínica sem eliminar completamente o parasita. Segundo Frézard, embora o antimônio e o alopurinol já sejam utilizados no tratamento de cães em países como a Espanha, o diferencial do protocolo desenvolvido na UFMG está na formulação, que incorporou o fármaco em vesículas lipídicas.

“Associamos o fármaco a nanossistemas carreadores, que alteram a farmacocinética, ou seja, sua concentração no organismo, em função do tempo”, explica. Encapsulado, o fármaco é rapidamente acumulado no fígado, no baço e na medula óssea, principais sítios de localização do parasita, e tem liberação sustentada de modo a permanecer por longo tempo nesses órgãos.

Na forma livre, a maior parte do medicamento é rapidamente eliminada por excreção renal. Enquanto o tratamento tradicional deixa menos de 0,1% do fármaco nos órgãos, com a nova formulação é mantida taxa de cerca de 50% da dosagem, por até quatro dias. Isso reduz efeitos colaterais, devido à diminuição da medicação e do número de doses necessárias.

Mesmo que transferida para a indústria, a tecnologia de tratamento da LVC não deve por enquanto chegar ao Brasil, uma vez que portaria interministerial de 2008 define o sacrifício dos cães infectados. “Ela baseia-se no pressuposto de que não existe tratamento eficaz, proibindo, inclusive, o tratamento da LVC com medicamentos para humanos”, comenta o professor. Ele acredita ser possível reverter a proibição, uma vez demonstrada a eficácia da formulação. “Esses resultados abrem novas perspectivas para mudanças na medida de controle da LVC no país, com a implantação desse novo método terapêutico”, defende.


Em humanos

Recentemente, o mesmo grupo de pesquisa sintetizou novo complexo de antimônio que utiliza cadeia de hidrocarboneto para tornar o fármaco menos solúvel em água e mais propício a atravessar barreiras biológicas, como intestino ou pele. Trata-se de antimonial ativo por via oral para tratamento das leishmanioses em humanos. “Também estamos desenvolvendo formulações para uso tópico”, diz Frézard, ao lembrar que mesmo para a doença na forma cutânea o tratamento em humanos utiliza forma injetável.

Em dissertação defendida no final de abril, Gregório Almeida avaliou essa formulação em camundongos infectados com o parasita Leishmania amazonensis e percebeu redução na carga parasitária das lesões. Já o potencial dos complexos anfifílicos de antimônio para formulações orais é objeto de trabalho de alunos dos programas de pós-graduação em electric unicycle Química e em Fisiologia e Farmacologia. “Temos estudado também, com o professor Rubén Sinisterra, do Departamento de Química, a ciclodextrina como sistema nanocarreador”, comenta.

As pesquisas são feitas no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nano-Biofarmacêutica (N-Biofar) e da Rede Mineira de Nanobiotecnologia. Têm financiamento da Fapemig e do CNPq, por meio do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex).

fonte https://www.ufmg.br/boletim/bol1773/6.shtml

Inserido dia 25/06/2012

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